Assistir uma boa partida de tenis acho que quase todo mundo já deve ter assistido. Seja no clube, alguma exibição (como a que assisti com a Steffi Graf no Maracanãzinho) ou até mesmo um torneio de maior importancia como os que eventualmente rolam em São Paulo, Rio e Bahia.
Mas assistir um torneio de Grand Slam é inquestionavelmente uma experiencia impar. Como somente existem quatro dessa categoria e fora o US Open, os demais são na Europa (Wimbledon e Roland Garros) e Australia, lugares mais distantes, sabia eu que a unica chance que teria na vida para tal era um dia assistir ao US Open mesmo.
Com acesso facil via metrô, já na chegada a magia de uma das copas do mundo do Tenis se faz notar. A começar pela visão do potentoso "Arthur Ashe Stadium". Nunca pensei que aquilo fosse tão, digamos, majestoso. O tamanho impressiona pelo fato de ser um estadio para jogos de tenis! Impossivel imaginar milhares de pessoas vidradas ao redor de uma quadra menor do que de futebol de salão e com apenas dois sujeitos dando raquetadas secas pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, opa, chega. Alem desse ainda compõem o complexo de Flushing/Queens o "Louis Armstrong Stadium" com seu anexo o "Grandstand". Ao redor ficam cerca de 15 quadras onde se desenrolam os jogos de menor audiencia mas nem por isso menor importancia. Se você tiver sorte poderá ver um Top Ten jogando uma de suas partidas iniciais contra um alegre desconhecido, talvez tão deslumbrado como eu próprio ao sentir no ar a própria história do Tenis mundial.
Com organização impecavel, típica dos roboticos americanos, você tem a opção de comprar entradas para um dos jogos principais nos estadios anteriormente citados ou adquirir o que eles chamam um ground pass, permitindo que você circule pela vila e assista quaisquer dos jogos que se desenrolam durante o dia em uma das mais de 10 quadras. Algumas possuem arquibancadas adjacentes enquanto em outras você assiste o jogo de pé mesmo, ao lado da cerca, como se você estivesse em um clube de Tenis. Como não existem cercas de arame separando as quadras, volta e meia você observa as bolinhas amarelas pulando sobre o publico e até sobre a quadra ao lado como eu pude ver. Tudo bem se isso acontecesse em um clube de amadores, mas foi interessante testemunhar um jogo de duplas feminino ser interrompido por que a bolinha vinda da quadra onde eu estava foi arremessada com mais força. A questão é que uma das jogadoras era ninguem menos do que a Conchita Martinez.
Reforçando o conceito de organização impecavel, centenas de fiscais e membros do staff patrulhavam militarmente cada recanto do complexo. Acesso as arquibancadas somente quando o jogo sofria as habituais, e previstas nas regras, interrupções para troca de lados no meio de um set ou pedidos de time out dos jogadores. Silencio sepulcral nos momentos decisivos que quando violados eram objeto de reprovação dos próprios jogadores ora por meio de olhares sisudos ao publico ora por reclamação verbal a algum fiscal de arquibancada. Barulho e Tenis definitivamente não combinam. A unica exceção feita eram os aviões decolando do "La Guardia" que eventualmente passavam sobre nossas cabeças.
O publico do Tenis é geralmente composto por aquela tribo que combina o boné com os tenis e meias de grife. Como é um esporte de elite, pessoas de bem com a vida fazem da festa um reveillon de bermudas. Esse aspecto torna o clima da mesma ainda mais glamuroso, o que embora não faça meu estilo, a torna esteticamente mais bonita. Jogadores wannabe vestidos à carater ostentavam orgulhosamente suas credenciais da USTA (United States Tennis Association) penduradas no pescoço como que dizendo "um dia ainda vou estar aqui jogando". No geral, era uma aglomeração basicamente familiar com os pais rebocando pela mão seus rebentos bastante excitados pela possibilidade de conseguir um autógrafo de algum jogador mais importante. O acessorio indispensavel para tal era uma bola de tenis "jumbo" vendida como souvenir onde os autografos eram coletados ao fim de cada partida.
Apesar de cheio o evento, a quantidade de pessoas parecia milimetricamente calculada para permitir a todos se divertirem, usufruirem das diversas opções da praça de alimentação(?) e de quebra assistirem alguns dos melhores jogos. Normalmente você não assiste mais do que um set de cada jogo e é claro que sempre procurando estar na quadra certa no momento certo do fechamento de um jogo que pode durar mais de 2 horas facilmente. Por isso não há como determinar a hora de inicio, exceto dos primeiros que começam pontualmente as 11 horas da manhã, do próximo jogo em uma dada quadra. Os portões são abertos as 10 horas sendo que por volta de meio-dia anunciaram que mais ninguem entraria. Fiquei feliz pelo comedimento na habitual ambição financeira desmedida dos organizadores de eventos dessa natureza. E olha que ainda cabia muita gente lá no campus.
A tática que implementei, acho que com sucesso depois de ter chegado as 11:30, foi de circular pelas quadras até por volta das 3 da tarde quando então assentei latifundio na melhor arquibancada no fundo da Quadra 10 onde se desenrolou alguns bons jogos incluindo o do brasileiro Saretta contra o equatoriano Lapentti, objetivo maior de minha ida ao US Open.
Tendo feito assim, pude observar satisfeito os jogos da parte da manhã e gastei a minha cota anual de assistir jogos de Tenis na parte da tarde. Ficar 6 horas com o traseiro sentado, a parte das pausas para comprar agua e visitar o WC, é prova de Triathlon categoria paciencia.
Após o excelente jogo do Saretta destroçando o equatoriano por 3 sets a zero, que até raquete quebrou arremesando no chão da quadra, rumava eu às 8:30 da noite em direção a saída quando avistei em um dos telões de TV disponiveis para o publico as imagens do jogo entre o Carlos Moya e um desconhecido na minha vasta intimidade com o mundo do Tenis. Como estava ao lado da entrada para o Grandstand (um mini-estadio) resolvi pescoçar para ver se tirava uma casquinha sem ter que pagar o devido ingresso. Eis que para minha felicidade e dada a disponibilidade de lugares vazios, o fiscal da entrada permitiu que eu adentrasse de graça resguardando obviamente a sacra regra de esperar pela próxima pausa no jogo.
O espanhol Moya é um dos Top Ten atuais no universo do Tenis, e o que pude testemunhar com esses olhos que a terra há de comer é o porque os lideres do ranking ganham aquelas fortunas todas apenas para bater em uma pequena esfera de feltro.
Parecia um mundo totalmente à parte o que aquele sujeito joga de Tenis. Varra para debaixo do tapete tudo o que você viu durante o dia. Moya faz o que quer e o que não quer com aquela raquete, castigando a bolinha amarela com golpes rasantes, precisos e de endereço certo. Obviamente não demorou muito para ele arrebatar mais uma vitória, facil no caso, em seu já extenso cartel. Fazendo o genero menino-rebelde, com camiseta sem mangas, exibindo tatuagens ao redor do biceps e sem esquecer o toque à la Romario com bandana na cabeça, o cara é uma estrela nessa constelação atual do Tenis mundial, ocupando esse ano a sétima posição no ranking.
E assim foi a minha primeira, espero não a ultima, experiencia em presenciar por um dia um torneio de Grand Slam. Ao Saretta meus parabéns por dar alegria aos poucos brasileiros que como eu lá estavam. A próxima estapa prevê que ele jogue contra o Andy Roddick, atual sensação do Tenis americano, que se dará amanhã, domingo. Uma vitória é pedir demais, mas quem sabe, afinal o Saretta já surpreendeu antes.