O obvio se explica por si só.
A chamada dessa notícia publicada no Valor Online inverte a ordem dos fatos e camufla alguns outros no matagal das linhas de uma boa matéria: Eleitor de Lula enricou mais
Ao inves de guardar para o final como manda o figurino do escritor de suspense, estrago logo a surpresa e deixo a luz da sala acesa antes do aniversariante chegar: o individuo que "enricou" não era necessariamente eleitor de Lula. Passou a ser pela graça alcançada: o Bolsa Familia.
Destrinchando o emaranhado dos numeros de recente estudo do IPEA [link arquivo PDF], sobre o qual o artigo supramencionado baseia-se, e para a alegria dos simpatizantes do atual ocupante do trono que já foi da familia Orleans e Bragança, sem muito esforço constata-se que o tratamento ora dado para resolver o problema da desigualdade de renda no Bananal é a como administrar Novalgina para dor de dente, alivia a dor momentaneamente mas não obtura a cárie. Com o tempo o dente apodrece e cai, não se preocupe.
Mas voltando a vaca fria, de acordo com o recentissimo estudo de relativamente facil entendimento temos que 50% da raiz do problema da desigualdade de renda advem do rendimento via trabalho. Em outras palavras, se todo mundo que trabalha (grifo meu) passasse a ganhar igual pela bandas de lá (ou de cá dependendo da optica) apenas metade do problema da desigualdade de renda no Bananal estaria resolvida. Se incluirmos os desempregados tambem recebendo chegariamos a 60% do problema resolvido.
Os outros 50% são explicados em grande parte pelos ditos programas sociais da era apedeuta, mais precisamente 35%, levando a reboque outros 15% que dependem da dobradinha entre renda do trabalho e do não-trabalho para compor o total, os tais 50%, da renda não derivada do trabalho. Sozinhas, as transferencias publicas responderam por 30% do impacto no aumento de renda da camada inferior do estrato da população ativa, ou seja, 85% do bolo que se pode ganhar sem trabalhar. O restante fica espalhado entre contribuições via setor privado alem de uma infima parte oriunda de rendimento sobre ativos. Para seu deleite apenas 1% da turba de Bruzundanga melhorou de vida decorrente de juros e aluguel.
Na realidade enquanto a camada de baixo enriqueceu mais do que a média, a camada de cima empobreceu dando-se a imediata transferencia de renda através de principalmente impostos - atualmente no apice de sua carga sobre o PIB - para bancar esse ticket refeição a despeito da costumeira mordomia estatal em escala crescente. Se sobrasse uns trocados quem sabe algum hospital ou escola veria a cor desse dinheiro. Segurança publica é assunto morto e enterrado nas condições atuais, não tem direito nem a gorjeta.
E o artigo que começava mal eis que para minha grata surpresa termina bem:
A geração de novos postos de trabalho contribuiu pouco para a redução da desigualdade porque estes foram ocupados por pessoas cujas famílias já tinham gente empregada. Não foi particularmente pelo emprego que os mais pobres e menos escolarizados tiveram melhoria de vida. (...)
Há poucas dúvidas de que as mudanças no perfil do eleitorado de Lula sejam reflexo da melhor redistribuição de renda no país. Resta saber o rumo que engajará essa gente egressa da miséria num projeto de nação.
Lula fez o que emergencialmente sua intuição dizia. Os resultados estão aí. Um salto quantitativo de vida para os desfavorecidos. Note bem, eu disse quantitativo e não qualitativo.
E agora José? O que será feito nos proximos 4 anos? Educação e saúde para alavancar a participação qualitativa dessa turma na economia do país ou vai-se continuar a distribuir apenas esmola ?